G u i l h e r m e   d e   A l m e i d a 

 
Guilherme de Almeida, um dos maiores poetas do Brasil, nasceu em Campinas, SP, em 1890, numa casa localizada na rua Dr. Quirino, 21 que não mais existe. Cantou as glórias de São Paulo, deu-lhe o sangue e sentiu na própria carne as suas desventuras.

Sua infância foi passada em Araras e Rio Claro, por várias circunstâncias. Aos doze anos foi para São Paulo. Pouco depois estudou na cidade mineira de Pouso Alegre. Retornou a São Paulo onde estudou no Ginásio do Carmo, chegando a concluir seus estudo de humanidades, matriculando-se, a seguir, e segundo a tradição paterna, na Faculdade de Direito, pela qual se diplomou em 1912.

Mais do que o canudo de doutor, interessavam-lhe, nessa época, os versos que ia publicando cada vez mais com frequência nos periódicos estudantis e nas revistas de maior evidência. À iniciação nos segredos da Ciência do Direito, apesar dos esforços do pai, Dr. Estevão, que exigia sua presença diária no escritório, ele preferia o convívio com as musas e a iniciação na vida boêmia da juventude dourada da cidade, que então no auge da riqueza proporcionada pelo café.

Mas sua vocação sempre foi a poesia. Aos vinte e sete anos saiu seu primeiro livro, Nós, primeiro de uma série que seria longa, com obras importantes, dentre elas Messidor, A dança das horas, Livro das horas de Sóror Dolorosa, esta última inspirada numa história real de uma moça da sociedade paulistana que, desesperada por não ver a sua paixão correspondida pelo poeta, enclausurou-se para sempre no Convento da Luz.

Quando em fevereiro de 1922 celebrou-se no Teatro Municipal de São Paulo os três festivais da Semana de Arte Moderna, Guilherme percorreu o Brasil, difundindo as ideias de renovação artística e literária através de conferências e artigos, adotando a linha nacionalista do Modernismo. Foi um dos redatores da revista Klaxon, importante órgão divulgador das ideias modernistas sobre literatura, música, artes plásticas, cinema e teatro que viveria até janeiro de 1923. Sua obra expressa, principalmente na poesia, um ritmo de flexões surpreendentes, máxime pela manipulação verbal, fiel à temática brasileira.

Notabilizou-se também como ensaísta e cronista. Em fins de 1926, foi chamado para cuidar de uma seleção de "O Estado de São Paulo": a de cinema. Escrevendo, então duas crônicas diárias e, a partir de 1928, três - "Cinematógrafos" e "Sociedade", para o Estado e "Pela Cidade", para o Diário Nacional - e exercendo, de quebra, suas funções de secretário da Escola Normal do Brás, transformou-se num homem de múltiplas facetas. Sua consagração veio quando foi eleito para a Academia Brasileira de Letras, na vaga de Amadeu Amaral.

O que nos chama a atenção em sua obra é o seu amor a São Paulo, pois participou de quase todos os movimentos cívicos da história na primeira metade do século XX, como a Revolução Constitucionalista de 1932. Inicialmente alista-se como soldado raso no Batalhão da Liga da Defesa Paulista e, depois, à frente do "Jornal de Trincheiras", do qual foi diretor. Com a derrota de São Paulo, foi preso e condenado ao exílio, em Portugal.

Compreendeu-o, porém, muito bem, o poeta português Leitão de Barros que, em dezembro desse mesmo ano, ao receber Guilherme, com todas as honras, na Academia de Ciências de Lisboa, como um dos grandes poetas da língua portuguesa, concluiu suas palavras com a seguinte observação: "...o poeta que luta, de armas na mão, por causa oportuna ou inoportuna, útil ou inútil, mostra-se claramente, indiscutivelmente, um idealista extremo - e que a sua poesia, a sua faculdade poética, assentam em bases de inabalável solidez, porque nasce de uma sôfrega sede de altura e de um profundo anseio de superar as inércias quotidianas, as cabardias e as hesitações que nos diminuem".

Para o grande mausoléu que abriga os restos mortais dos 16 voluntários de Campinas que encontraram a morte no movimento de 1932, Guilherme escreveu um dos seus mais belos e inspirados versos:

Não é túmulo! É berço! É sementeira
De ideal; baliza do futuro; pista.
Rastro de heróis na terra campineira.
Sobre eles, cor a cor, lista por lista,
Eternizou seu voo essa bandeira,
Petrificou-se o pavilhão paulista.
Bandeirantes por vós, nesta jazida,
Velam as pedras, que esta morte é vida.

Durante a participação da Força Expedicionária Brasileira, por ocasião da Segunda Guerra Mundial, escreveu a Canção do Expedicionário, musicada por Spartaco Rossi.

Entre os inúmeros títulos e condecorações com que o distinguiram, o de "Príncipe dos Poetas Brasileiros" foi o de maior expressão, pois foi conferido em votação Nacional, em 1959.

Depois de longa enfermidade, o poeta faleceu a 11 de julho de 1969. Seus restos mortais repousam na vigilia do Mausoléu do Soldado Constitucionalista, em São Paulo, a trincheira que jamais capitulou.

Campinas consagra-lhe uma semana no calendário cívico da cidade e no tradicional Largo do Rosário foi inaugurado, em 1972, o busto do poeta. No pedestal foram inscritos os seus versos:

"Como de mim há de partir uma alma
De mim partiu o meu primeiro verso
Campinas, amorosa amada minha
Eu deixei de ser eu para ser nós"


Sua casa, em São Paulo, na rua Macapá, transformou-se num museu, hoje propriedade do Estado, revelou nos versos que gravou em nossos monumentos, nas 7.500 crônicas escritas e publicadas diariamente um entranhado à sua terra.


Por Duílio Battistone Filho
Professor de História da Arte